domingo, 10 de dezembro de 2006



Eu sei que tu sabes. Mas acredita que não poderia ser por outra razão qualquer. É mesmo pelo sentimento. Pelo enorme sentimento. E por aquilo que vem no acréscimo do amor, porque e não fosse por isso, esta nossa relação nunca teria pernas para andar.
Ele revolta-me. Mesmo. Revolta-me muito. Mas por mais irritada, passada, alterada que fique nunca mudo nenhuma situação por isso acho que aos poucos estou a aprender a lidar com estas dificuldades que sempre surgem nos finais de semana. E juro-te que hoje falava com ele. Porque se o problema é eu usar saia, eu posso começar vestir calças…
Provavelmente eu acabo sempre por ficar numa situação melhor que a tua mas mesmo que assim não fosse, continua a ser injusto. E hoje era mesmo aquele dias em que só um abraço não chegava…mas ainda assim, nem isso tive. E quando me lembro que ontem por um milésimo de segundo não vi essa carinha fofa, apetece-me bater no idiota do teu tio que se lembrou de marcar a tal missa, na qual fui ouvir falar de natal…como se o natal tivesse algum significado. E no final, pega em mim e diz-me que a tua avó mora para lá da igreja e que ontem viu a tua mãe e mais umas tretas quaisquer que foram capazes de me fazer sorrir. Mas a vontade de lhe bater persistia…Mas enfim, ele é boa pessoa bem lá no fundo, e eu gosto dele, naquele ar desajeitado e jeito ciumento. Mas ele tem piada.
E voltando à missa, segundo o padre «temos que abrir a nossa alma e arrumar a casa do nosso coração para que Jesus nos visite no natal» (nas palavras dele)(que ouvi durante mais de uma hora numa tal sessão a que chamam missa, com cerca de 100 pessoas todas sentadas naqueles pedaços velhos de madeira, devotas a um padre que de 10 em 10 minutos mandava fazer silêncio e salientava, sem o referir, a falta de educação das crianças presentes, certamente culpa dos pais).
E hoje contava almoçar contigo, e passar uma daquelas nossas tardes, só nossas mesmo, fosse no cinema habitual ou no jardim do costume. Ou num novo sitio. Desde que fosse. Mas não foi…


Amo-te bebé.



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10 De Dezembro…Ainda me lembro como se fosse hoje, como se tivesse acabado de acontecer. Ela entra pelo quarto e sem qualquer tipo de aviso, senti aquelas palavras saírem-lhe boca fora…impiedosas. Lembro-me de me sentir gelar, da vergonha de chorar, de não saber o que dizer, e lembro-me daquele abraço instintivo. Lembro-me dessa noite, do dia a seguir, de sonhar com ele vezes sem conta, e lembro-me do maior tormento da minha vida, que é ela, e que eu odeio com todas as minhas forças. E no lugar dele podia, aliás, devia, ter ido ela, que não faz falta a ninguém.
Eu e ele podemos nunca ter tido aquela tão famosa relação de que todos falam, de «avô-neta» mas eu sei que tinha lá um lugarzinho para mim e que sempre fui melhor que todas as outras. E talvez este seja o meu lado convencido a funcionar, mas não deixa de ser verdade.
Para além de dinheiro, as únicas coisas que ele deixou foram ela, que faz parte da minha vida, e saudade. E remorsos também.
Lembro-me de todas as visitas ao hospital, das noites mal dormidas, de jogar damas numa qualquer sala de clínica privada. E as lágrimas nas poucas das missas que tive coragem de ir. Não porque não haja sentimentos. Mas simplesmente porque aquela coisa a que chamam mulher me envergonha e porque tudo aquilo me traz recordações de algo que eu só quero esquecer.
E o tempo não volta atrás, a vida não se refaz mas se voltasse dir-lhe-ia tudo aquilo que a minha boca nunca foi capaz de proferir…

E já passou um ano…nem acredito…

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